11/10/18

* Da Biblioteca ao Leitor



Este é um dos momentos que mais aprecio, aqui da minha secretária. Os computadores estão todos ocupados com alunos de olhares apreensivos a ler, na Internet, textos que me ultrapassam e o silêncio só é ferido por cliques de teclados e de ratos em mãos apressadas na busca de mais informação. Na ala do fundo vejo alunas concentradas a escrever no caderno e a sublinhar fotocópias. Por vezes, bocejam ou mudam de posição, mas continuam a rentabilizar o seu tempo. Do outro lado, duas professoras trabalham nos seus portáteis. Ao todo são quinze alunos a viajar na volúpia deste espaço. Os lugares da Alexandra e do Emanuel hoje estão vazios, mas é ali que põem as suas leituras em dia.

Todos os dias o cenário é diferente. As horas nem sempre são assim mortas por fora e vivas por dentro, mas há-as e isso reconforta-me. Os livros existentes do PRL e do PNL estão expostos e os professores nas aulas devem estar a falar aos alunos ou vice-versa, das leituras, reflexões e pontos de vista de alguns dos livros aqui requisitados.

Há o dia-a-dia como este e há as dinâmicas da biblioteca escolar que podem ser muitas e diversificadas, mas que não deverão existir só para preencher o PAA. A sua realização deverá ter como principal objetivo a formação de leitores responsáveis, autónomos e críticos; cidadãos capazes não só de dominar as tecnologias da informação e as redes sociais, mas de rentabilizar os seus conhecimentos ao serviço das suas aprendizagens e leituras, do seu envolvimento na comunidade.

Chegamos a uma era em que as bibliotecas da Gulbenkian nos trazem à memória como o saber era servido frio, pronto e acabado, mas que para a época, de elevada taxa de analfabetismo, contribuíram, em muito, para a abertura de mentalidades e para o gosto pela leitura. Essa passagem de testemunho que alguns de nós vivenciámos e que outros já não conhecem foi tão válida quanto é o conhecimento transmitido nas bibliotecas escolares do século XXI. Futuramente, estas serão recordadas, juntamente com os níveis de iliteracia e das taxas de insucesso e de abandono escolar dos nossos dias.

Naturalmente, alguns destes alunos, quando adultos, lembrar-se-ão das atividades realizadas na nossa biblioteca, como a Semana da Biblioteca que envolveu o Grupo de Teatro da escola, assim como o Almoço da Biblioteca ou as Visitas Guiadas, como se pode ver no blogue Trabalhadas Palavras que pretendemos manter no ativo.

A biblioteca é uma fonte de saberes inacabados, um lugar de histórias por completar, de dinâmicas para desenvolver e de criatividade para repartir. O coordenador da biblioteca escolar é o mensageiro destas dinâmicas, quer no presente, quer no futuro, pela responsabilidade que a sua profissão exige. Se os tempos mudaram em relação às bibliotecas do passado também mudarão as práticas das bibliotecas deste tempo em que muito há para fazer na área da literacia da informação. Não poderemos deixar de nos envolver, senão corremos o risco de estagnar e de perder a oportunidade de partir para outras viagens.

Silvana Correia – Coordenadora da Biblioteca Escolar da Escola Secundária Vitorino Nemésio

*Artigo publicado no 1º Jornal online do Plano Regional de Leitura Açores, Janeiro de 2014



Notas: 
PRL – Plano Regional de Leitura;
PNL- Plano Nacional de Leitura;
PAA- Plano Anual de Atividades
Link do blogue-Trabalhadas Palavras: http://quedizvitorinobe.blogspot.pt/

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