05/03/15

Livre acesso, a minha primeira conquista!


Tentemos transformá-la num universo à medida do homem 


«... Um dos mal-entendidos que dominam a noção de biblioteca é o facto de se pensar que se vai à biblioteca pedir um livro cujo título se conhece. Na verdade acontece muitas vezes ir-se à biblioteca porque se quer um livro cujo título se conhece, mas a principal função da biblioteca, pelo menos a função da biblioteca da minha casa ou da de qualquer amigo que possamos ir visitar, é de descobrir livros de cuja existência não se suspeitava e que, todavia, se revelam extremamente importantes para nós.
... A função ideal de uma biblioteca é de ser um pouco como a loja de um alfarrabista, algo onde se podem fazer verdadeiros achados e esta função só pode ser permitida por meio do livre acesso aos corredores das estantes.
... Se a biblioteca é, como pretende Borges, um modelo do Universo, tentemos transformá-la num universo à medida do homem e, volto a recordar, à medida do homem quer também dizer alegre, com a possibilidade de se tomar um café, com a possibilidade de dois estudantes numa tarde se sentarem numa maple e, não digo de se entregarem a um amplexo indecente, mas de consumarem parte do seu flirt na biblioteca, enquanto retiram ou voltam a pôr nas estantes alguns livros de interesse científico, isto é, uma biblioteca onde apeteça ir e que se vá transformando gradualmente numa grande máquina de tempos livres...».

Umberto Eco, A BibliotecaLisboa, Difel, 1987
Título original: De Biblioteca (1983)




04/03/15

No mês (em que se comemora o dia) do PAI


RETRATO DO PAI

Quem era aquele de quem tirei o sangue forte,
Esta pequena música corrente?
veia mamou-a a morte,
Que engorda à custa da gente.
[…]
Tempo que levas meu Pai morto,
Com catorze cavalos, todos de músculo solar,
E, para o ano, quinze! crescendo! e ele absorto!
E os cavalos cada vez mais empinados! Morto...
Com que jarrete ou asa o hei-de eu alcançar?
      
Vitorino Nemésio, "O Canário de Oiro",in Bicho Harmonioso


 [Retrato do Pai]
      
[M]eu Pai, grande "balcão" e homem de boas contas, tinha crises de uma espécie de vagabundagem poética que nada podia travar. Estou a ver o Sr. Paulino danado com as ausências que meu pai fazia à loja [...].
Em 1909 teve a crise maior de que me lembro. Andava excitadíssimo. Minha Mãe era muito paciente, mas não entendia a ponta de mistério e de poesia que aquela excitação ocultava [...]
O desfecho dessa crise de 1909 foi uma espécie de fuga de meu Pai para Lisboa. Fechou-se uma tarde comigo lá para o fim da casa, num quarto de hóspedes; e, completamente transtornado, passando facilmente do berro desabrido à lágrima e aos mimos, ensinou-me em duas horas um Stabat Moter quase lúgubre. Nunca mais me esqueceu! Ainda hoje tenho a impressão de um sacre, naquela tarde. O dedo dele a estalar o compasso no grosso papel de música, o quarto numa nuvem de fumo de cigarro, eu a tremer de medo e ao mesmo tempo conquistado por aquele encanto dramático das frases latinas, a música muito triste, meu Pai todo transtornado cobrindo-me alternadamente de berros e de beijos. Era a sua despedida. Nem que tivesse a consciência de me sagrar para um destino que lhe escapara a ele. [...]
No dia seguinte à fuga de meu Pai, minha Mãe despachou duas pessoas ao seu encontro. [...] Mas meu Pai teimou e embarcou. Voltou dali a três meses carregado de gaiolas de Pássaros: um rouxinol que comia carne crua, uma viúva, um chamariz, um verdelhão... Numa mala de porão, uma carrada de letreiros de esmalte e instrumentos esquisitos: ocarinas, um cuco, um flagiolé.
Na vida pascácia da Praia este feitio de meu Pai desconcertava meio mundo. [...] A mim, dava-me uma impressão de sonho e de poesia. [...]
Eu gostava de ficar horas e horas ao lado de meu Pai, a vê-lo ler. Deitava-me por cima da roupa. Ele então tirava as lunetas e falávamos numa língua pitoresca, a fingir estrangeira. Que mistério e que sonho essas coisas foram criando em mim! São bagatelas, bem sei. Contadas assim descosidas são quase ridículas. Mas eu sei que foi delas que fiz a minha expressão e a minha vida. [...]
Meu Pai é a grande saudade da minha meninice. Todas as coisas que eu vi e senti vão ter a ele como a um rio. Foi ele que me deu esta alegria que eu tenho enterrada na minha abstracção e nos desvios de uma vida de que eu sou o único culpado; mas foi ele também, ou, antes, o seu fadário, que encheram a minha adolescência de melancolia e de temor. [...]
Coitadinho o meu Pai, sempre tão bom para mim e fazendo de mim a sua esperança e desforra! [...] Tudo [...] eu dava ou tornava a passar para o ver [...] (Com que jarrete ou asa o hei-de eu alcançar?...). Tudo isso eu tornava a engolir para o fazer participar da minha vida de homem. Sei que ele havia de ter compensação e alegria. E não era só a gloríola do burguês com filho lente: era a desforra de me ver, enfim, servir-me das nossas tristezas e alegrias como matéria de expressão – desabafar pela minha voz os seus sonhos recalcados, outros francamente escarnecidos.

"[«Retrato do Pai»]" / Vitorino Nemésio. In: Homenagem a Vitorino Nemésio / Um inédito de Vitorino Nemésio / David Mourão-Ferreira. Documento, Colóquio/Letras n.º 102, Março 1988, pp. 29-34.
      

                                 
      
[Outro Pai]

O criado não pôde responder. De mão no batente da porta, encolheu-se como quem dá passagem a um animal perseguido. Margarida rompeu, atropelou Maria das Angústias, que lhe barrava o caminho, abriu a porta da saleta e perdeu-se no escuro da casa. Com o casaco cinzento que lhe caíra dos ombros deixara um rasto de caçada. D. Catarina apanhou inconscientemente aquele volume do chão, como se tal pormenor fosse absolutamente indispensável para ir atrás da filha. O casaco cheirava a ervas e a ressalga. Mas na porta da saleta, sem que tivesse sentido passos, o marido agarrou-a por um ombro a arredou-a quase com calma, como se deitasse a mão a uma cancela de molas. Ia cego, de capote de cavalaria, com uma verdasca na mão.
‑ Diogo! Diogo !...
A porta foi de encontro a D. Catarina com a mesma força opaca que o vento opusera aos esforços de Manuel Bana para fechar a da cozinha. Ouviram-se então gritos abafados pelo vergar da verdasca nos vestidos de Margarida:
‑ Oh pai, pela sua saúde! Oh pai, pelo amor de Deus!
‑ Abre, Diogo! Abre!
A verdasca zunia. Sentiram-se cadeiras arrastadas e um arquejar sem soluços, pura expiração de quem luta em inferioridade consentida, numa defensiva cheia de razões e de reservas braçais:
‑ Não me bata mais! ‑ A verdasca vibrava. ‑ O pai não me toque, pelo amor de Deus! ‑ Mais verdascadas. As cadeiras tornavam a dançar, como se houvesse uma barricada ao fundo dos salões. Deixe-me, pai! Deixe-me senhor!
      
                                                                              Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal