21/02/15

Nemésio por inteiro, hoje

V  N


Tenho uma Saudade tão Braba


Tenho uma saudade tão braba 
Da ilha onde já não moro, 
Que em velho só bebo a baba 
Do pouco pranto que choro. 

Os meus parentes, com dó, 
Bem que me querem levar, 
Mas talvez que nem meu pó 
Mereça a Deus lá ficar. 

Enfim, só Nosso Senhor 
Há-de decidir se posso 
Morrer lá com esta dor, 
A meio de um Padre Nosso. 

Quando se diz «Seja feita» 
Eu sentirei na garganta 
A mão da Morte, direita 
A este peito, que ainda canta. 

Vitorino Nemésio, in "Caderno de Caligraphia e outros Poemas a Marga [*]"

[*] Margarida Vitória,  Marquesa Jácome Correia



      













A  CONCHA 

      

          A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência. 

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.  

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.                         
A minha casa... Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.      
                 
Vitorino Nemésio, O Bicho Harmonioso (1938)



Em síntese, o poema “A concha" é atravessado por duas linhas: a da interioridade e a da exterioridade, esta provocada por aquela. Um pequeno esquema pode ajudar a compreender o poema:
      
                                       A CONCHA, Vitorino Nemésio
J. Guerra e J. Vieira, Aula Viva. Português B. 12º Ano, Porto Editora, 1999