31/12/13

Um pequeno conto de Ano Novo









      Jacinto Lucas Pires

Na noite de 31 de Dezembro Tristão acorda em sobressalto. Sonhava com um carrossel de cores quando um estrondo lhe atravessou a cabeça fazendo-o erguer da cama grande.
Tudo naquele quarto lhe parece grande e estrangeiro, paredes, portas, armários, mas o que sente não é exactamente medo. Mais uma saudade das cores do sonho. Ali, agora, tudo escuro e enevoado, como nos sonhos falsos dos filmes. Ele vira-se, desce da cama. Um miúdo de três anos e meio com uma cara clara e grandes, espantosos, olhos pretos.
No corredor, quadros com imagens de caça. Tristão pensa como são feios os rostos sem sobrancelhas dos cavaleiros. Para não ver mais nenhum, olha para baixo enquanto anda. Os pés descalços na madeira fria. Quando encontra uma porta, empurra-a.
A meio da sala, dá conta de ir a chorar baixinho. Esperava encontrar alguém depois da porta, mas não há ninguém. Nem a mãe, nem o pai. E, à medida que vai avançando para a outra porta, adensa-se o medo estremunhado no coração do miúdo. Por um lado, o choro ecoando naquele espaço. Por outro, o terror das coisas, tão quietas e imprecisas. A cadeira fora do lugar, o cinzeiro sujo. Tristão sente que, agora acordado, está dentro de um lugar muito mais vago e nevoento do que antes, quando sonhava. Um lugar vago e escuro e nevoento que é tal e qual um pesadelo.
Outra porta: luz, música. Homens com laços debaixo do queixo, mulheres com pescoços nus. Mostram-se espantados e alegres ao verem-no, mas são maus actores. E a luz é violenta, e alguém dá uma gargalhada grossa, e há o estrondo de bombas lá fora. Tristão não chora mais. Está em pânico, olhos perdidos. Vai atirar-se para o chão e enrolar-se sobre si próprio, fechado a qualquer palavra ou gesto, repetindo para dentro "não, não".
Mas o mordomo da empresa de organização de eventos vale o seu peso em ouro. Pousa a garrafa de champanhe, pega no miúdo. Sorri aos convidados e sai com ele para a janela, para ver o fogo-de-artifício. "Estás a ver? É isto o barulho", diz-lhe.
E Tristão serena porque pensa que aquelas cores explodindo na noite são tão parecidas com as do sonho, tão parecidas, que afinal talvez seja aquilo a "realidade".
                                                                                                                                                                                retirado daqui

30/12/13

Natal na Ilha do Nanja




Cecília Meireles

Na Ilha do Nanja, o Natal continua a ser maravilhoso. Lá ninguém celebra o Natal como o aniversário do Menino Jesus, mas sim como o verdadeiro dia do seu nascimento. Todos os anos o Menino Jesus nasce, naquela data, como nascem no horizonte, todos os dias e todas as noites, o sol e a lua e as estrelas e os planetas. Na Ilha do Nanja, as pessoas levam o ano inteiro esperando pela chegada do Natal. Sofrem doenças, necessidades, desgostos como se andassem sob uma chuva de flores, porque o Natal chega: e, com ele, a esperança, o consolo, a certeza do Bem, da Justiça, do Amor. Na Ilha do Nanja, as pessoas acreditam nessas palavras que antigamente se denominavam "substantivos próprios" e se escreviam com letras maiúsculas. Lá, elas continuam a ser denominadas e escritas assim.

Na Ilha do Nanja, pelo Natal, todos vestem uma roupinha nova — mas uma roupinha barata, pois é gente pobre — apenas pelo decoro de participar de uma festa que eles acham ser a maior da humanidade. Além da roupinha nova, melhoram um pouco a janta, porque nós, humanos, quase sempre associamos à alegria da alma um certo bem-estar físico, geralmente representado por um pouco de doce e um pouco de vinho. Tudo, porém, moderadamente, pois essa gente da Ilha do Nanja é muito sóbria.

Durante o Natal, na Ilha do Nanja, ninguém ofende o seu vizinho — antes, todos se saúdam com grande cortesia, e uns dizem e outros respondem no mesmo tom celestial: "Boas Festas! Boas Festas!"

E ninguém, pede contribuições especiais, nem abonos nem presentes — mesmo porque se isso acontecesse, Jesus não nasceria. Como podia Jesus nascer num clima de tal sofreguidão? Ninguém pede nada. Mas todos dão qualquer coisa, uns mais, outros menos, porque todos se sentem felizes, e a felicidade não é pedir nem receber: a felicidade é dar. Pode-se dar uma flor, um pintinho, um caramujo, um peixe — trata-se de uma ilha, com praias e pescadores ! — uma cestinha de ovos, um queijo, um pote de mel... É como se a Ilha toda fosse um presepe. Há mesmo quem dê um carneirinho, um pombo, um verso! Foi lá que me ofereceram, certa vez, um raio de sol!

Na Ilha de Nanja, passa-se o ano inteiro com o coração repleto das alegrias do Natal. Essas alegrias só esmorecem um pouco pela Semana Santa, quando de repente se fica em dúvida sobre a vitória das Trevas e o fim de Deus. Mas logo rompe a Aleluia, vê-se a luz gloriosa do Céu brilhar de novo, e todos voltam para o seu trabalho a cantar, ainda com lágrimas nos olhos.

Na Ilha do Nanja é assim. Arvores de Natal não existem por lá. As crianças brincam com. pedrinhas, areia, formigas: não sabem que há pistolas, armas nucleares, bombas de 200 megatons. Se soubessem disso, choravam. Lá também ninguém lê histórias em quadrinhos. E tudo é muito mais maravilhoso, em sua ingenuidade. Os mortos vêm cantar com os vivos, nas grandes festas, porque Deus imortaliza, reúne, e faz deste mundo e de todos os outros uma coisa só.

É assim que se pensa na Ilha do Nanja, onde agora se festeja o Natal.


Texto extraído do livro “Quadrante 1”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1966, pág. 169.
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