26/12/13

Natal. Na província neva.


           Manhã no país após tempestade de neve.
           Óleo sobre tela de Kazimir Severinov Malevich

Natal. Na província neva.

Nos lares aconchegados

Um sentimento conserva

Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,

Como a família é verdade!

Meu pensamento é profundo,

Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça

A paisagem que não sei,

Vista de trás da vidraça

Do lar que nunca terei!
      
       Fernando Pessoa

Presépio








Nuzinho sobre as palhas,
nuzinho - e em Dezembro!
Que pintores tão cruéis,
Menino, te pintaram!

O calor do seu corpo,
pra que o quer tua Mãe?
Tão cruéis os pintores!
(Tão injustos contigo,
Senhora!)

Só a vaca e a mula
com seu bafo te aquecem...

- Quem as pôs na pintura?

                                              Sebastião da Gama




O poema tem 63 anos. Foi produzido em 24 de dezembro de 1950. Seu autor: Sebastião da Gama.
Deste presépio salta toda a sensibilidade e lirismo do poeta azeitonense, surgindo aliadas várias tonalidades - a de um certo franciscanismo e a de um gosto grande pela pintura, uma e outra tão   cultivadas pelo poeta da Arrábida. O poema teve publicação póstuma em livro, em Pelo sonho é que vamos (1953).

25/12/13

Presépio


Presépio

Duas tábuas...
E era um berço!

Tudo escuro...
E alumiava!

Estaria Deus lá dentro?
Fomos a ver...

E lá estava! 

Pedro Homem de Mello


Obra "Natal" (1969) de Di Cavalcanti - óleo sobre tela

NATAL UP-TO-DATE*


Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam microfones
O lajedo em redor é de pedras da Lua
Rainhas de beleza vêm de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa E passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco

David Mourão-Ferreira (1948 - 1988)


*Publicado pela 1ª vez no «Diário de Notícias» de 25 de Dezembro de 1969. 
Incluído posteriormente em CANCIONEIRO DE NATAL (1971)






Jorge de Sena (1919-1978) 
Solstício de Inverno - 21 de dezembro de 2013  - foto de Roberto Costa

Eternidade
Vens a mim
pequeno como um Deus,
frágil como a terra,
morto como o amor,
falso como a luz,
e eu recebo-te
para a invenção da minha grandeza,
para rodeio da minha esperança
e pálpebras de astros nus.
Nasceste agora mesmo. Vem comigo.
In PERSEGUIÇÃO [1942]

23/12/13

Boas Festas





Natal é sempre que nos damos gratuitamente, em amor e amizade, como nos anónimos dias do ano. Mas porque celebramos de maneira particular esse mesmo amor gratuito e presente, não deixo de enviar a todos os meus amigos reais e virtuais, dos e-mails e da vida real, da blogosfera, os meus votos de um Natal tranquilo, Feliz e com Paz. Ou, como li recentemente no mural de uma amiga, (e esta é uma frase lapidar que resume tudo o mais que se queira dizer), "só quem oferece Natal aos outros pode ter Natal para si."
Feliz Natal...
E obrigada por estarem aí... SC

Dar e DAR






Que posso eu dar ao teu destino? Nada.
Nem eu mesmo sou feito para dar.
Encontrei-te na curva de uma estrada 
E esqueci-me da curva e do lugar.

Se havias de mandar no meu andar
Saberias a hora da chegada.
Nem tudo fica como o chão na estrada
E não há mais que ver o que buscar.

Perfeitamente conhecedor disto
O juízo humano em minha companhia
Não descobre a visão de que consisto

E entre visões, aliás, a memória passa
Como a última saudade que há no dia
E o último sonho e a última desgraça.

                          Fernando Pessoa
                                                 ver aqui

22/12/13

"Menino Jesus entre os doutores"





Anjos
Os anjos são rijos como as pedras
E leves como as prumas.
Na leira rasa de aves, Tu, que redras
Terra, névoas e espumas,
—Deus, de teu nome! —sabes
Que um anjo é pouco e imenso:
Por isso cabes
No anjo e ergues o incenso.

Desfaleço a pensar-te,
Ó ser de Anjos e Deus
Que baixa em mim:
Sobe-me na alma, que ando a procurar-te
E dizendo-te Deus
Acho-te assim.

Anjos são os terríveis
Modos de Deus connosco;
Nós, as suas possíveis
Transparências a fosco.

Lívidos, sem respiração
Ficávamos do toque
Da primeira asa vinda;
Mas eles rondam apenas a oração
Que múrmura os evoque,
E vão-se, e tornam ainda.

Deles para cima, ainda mais graus de glória
Relutam ao sentido
Que deles vem à memória
Como uma bolha de ar na água do olvido:
No mais, são tão pesados,
Os anjos leves ao justo…
Tão alados,
Mas desgostosos do nosso susto!

É isso! Disse-mo agora
O verbo súbito surpreso:
Ser anjo é espanto da demora
Nossa e do peso pávido
Que nos estende.
Terrível é quem toca terra
Para a levar, e não a rende.

Que o anjo, de si, é àvido
De transe e rapidez,
E é ele que chora
Nosso chumbo, hora a hora:
É ele que não entende
A nossa estupidez.

Vitorino Nemésio in  O Pão e a Culpa, Lisboa 1955.

Natal


Foi tudo tão pontual

Que fiquei maravilhado.

Caiu neve no telhado

E juntou-se o mesmo gado 
No curral.
Nem as palhas da pobreza

Faltaram na manjedoira!

Palhas babadas da toira

Que ruminava a grandeza
Do milagre pressentido.
Os bichos e a natureza
No palco já conhecido.
Mas, afinal, o cenário

Não bastou.

Fiado no calendário,

O homem nem perguntou
Se Deus era necessário…
E Deus não representou.


Miguel Torga - 1950