10/11/13

Alexandre O'Neill [em todo o caso]

Remancha, poeta


Remancha, poeta,
Remancha e desmancha
O teu belo plano
De escrever p'la certa.
Não há "p'la certa", poeta!

Mas em todo o caso acerta
Nem que seja a um verso por ano...


alexandre o'neill
tomai lá do o'neill, uma antologia
círculo de leitores
1986

Caderno de notas






ROSTO



Voltei o olhar

para dentro de mim

e tudo escureceu

numa tristeza maior.

A razão perdeu-se

no labirinto sanguíneo,

enquanto os meus lábios

saboreavam

o sossego com vozes ao longe.

As horas alongaram-se.

Os pequeninos momentos de êxtase

sobressaltaram

misturaram-se com lágrimas teimosas.

Ensimesmada,

parei por ali,

esquecida no meu sofrer.

Do escuro das minhas pálpebras

sombreavam

círculos coloridos

poeira dourada

de um sonho que teimava entrar.

Deixei que o passar das horas

desenhasse mais vida

para além da minha.

Deixei que borboletas

pintassem a tela

daquele dia.

E, ao tirar a mão dormente

do rosto pousada,

abri os olhos

e encontrei outro dia.

Vislumbrei

outro tempo

que nunca fora meu,

outra esfera, círculo ou bolha

transparente e definida

que tudo esclareceu.

A ausência e a dor do silêncio

que em mim procura

transfigurou o semblante

em cândida doçura.

Sem percepção,

os músculos contraíram…

outros traços

se delinearam

naquela que só eu sou:

uma suave harmonia

que Deus dá à beleza

das mulheres que aceitam

que a dor de cada dia

quando abraçada

com bem-querer

lhes transfigura o rosto

lhes transfigura a vida

lhes transfigura o Ser

em beleza indefinida

que só em tela pode haver.



16 de abril de 2010



Autoria de Silvana Correia