23/05/13

Por um punhado de Espírito Santo


CONTOS com desconto,
Álamo Oliveira, 1991
 _ Em nóminhè Patre, do filho e Espírito Santo, àmena!_ persignou-se o ti Francisco Florinda diante do altar que fora armado no meio da casa, encimado por coroa de prata enfeitada com flores de laranjeira em seda, a brilhar de velas acesas. Encostado à ombreira da porta, o ti Florinda iniciou a reza do terço em louvor do Divino, depois de foguete estalado para um acabar de bailarico saltado na eira. Os homens encheram a cozinha e o corredor, alternando Avé-Marias de voz grossa com as finuras de voz das mulheres em «Santa Maria, rogai por nós!» A elas cabia o privilégio de ficar ao lado do altar que, dias antes, tinham feito com rendas e papéis crespados, tudo enfeitado a espago e bordões de S.-José (1).
[...] Os bôdos desse ano, na freguesia (2), deixavam adivinhar ser coisa de valor. Os dois partidos (3) tinham já começado a azedar os ânimos. Altercações e briguinhas quezilentas não só enchiam os cavacos de tenda, sociedades de recreio, adro e barbearia, como adornavam o falatório das mulheres, disparado de janela a janela e barrelado nas pias dos lavadouros públicos ou nas esperas de encher o pote na bica do chafariz. O primeiro sinal de guerra foi dado pelas duas «impenatrizes» (4). A mulher do José da Ana topou a tia Josefa à janela, num descanso de fim-de-tarde. Sem que lhe desse a salvação sequer, atirou-se-lhe a despropósito, com a língua de aniz a tropeçar nos lês molhados:
- Antã, Josefa, sempr'é verdade qu'os t'rroristas tivero de fazer pedit´re p'ra te valhêrie nas cozeduras?! - insinuou como beata comungada.
A tia Josefa sentiu os bofes na boca, disparatados por foguete que lança toiro no caminho:
- Sume-te, excomungada, qu`ê nim queiro tentaçães: Tu julgas qu'a gente deve algua coisa a alguém, com'a tu... Olha que tudo se sabe, m'nha 'trevida!
- Graces a Dês, nã devemos nada a ninguém. Mas muit´m'admiro com'a é qu'o Espírito Santo sai a gente com'a vocêses...
- Ah, Senhô Espírito Santo! corta-lhe aquela línguea que só serve p'ra levintar aleivas... Olha qu'o Espírito Santo é vingative!
Perante tão forte imprecação ao Divino, a mulher do José da Ana esguichou caminho fora como que varrida a pau do forno. A tia Josefa deixou cair a folha (5) da janela com fúria de guilhotina e assoprou três vezes em desabafo misericordioso, limpando com a ponta do avental a lágrima espremida a raiva e virtude. O Espírito Santo era vingativo, sinal de luta e de discórdia.[...].

                                                                in Contos com desconto, Álamo Oliveira, 1991.

Glossário
(1) Flores brancas dos jardins rurais.
(2) O espaço físico, como localidade não é mencionado nesta estória, mas está implícita a freguesia dos Altares, na Ilha Terceira,  onde durante os anos 60 as rixas entre os populares, por causa do Espírito Santo chegaram a ser de tal ordem que os cortejos das coroações eram escoltados pela polícia.
(3) Os populares da freguesia em questão dividiram-se em duas fações: a dos "Terroristas" que eram contra o padre e que não coroavam na Igreja e a dos "Saiotes", seguidores das saias do padre. O  padre Francisco, neste conto, remete para o então pároco da freguesia Monsenhor Inocêncio Enes. A par das rixas entre "irmãos" de um lado e outro, passou a haver numa única freguesia : duas Sociedades Recreativas, duas Filarmónicas, duas corridas de touros pela altura do bodo, com fações de ganadeiros diferentes. Os "Saiotes"  adquiriram  insígnias do Espírito Santo à parte: coroas, bandeiras, tochas...
(4 Gíria popular de "Imperatriz", a mulher do Imperador;  a que recebia o Espírito Santo em sua casa.
(5) Metade da janela de guilhotina, típica das casas rurais.

Notas e uma de várias interpretações de SC.



22/05/13

Compreender Kierkegaard


"O real comum dececiona a expetativa das almas por demais ardentes: elas desejariam encontrar no real a densidade, a mesma densidade que as inflama. A alma exigente é ferida pela ausência de distinção moral, de nobreza de alma dos outros, ferida por aquilo que é baixo e vulgar. Fica assim remetida de volta a si mesma, ao fundo de interioridade de onde brota a exigência dececionada. O sofrimento causado pela melancolia tem, portanto, um caráter de profundidade que perfura a interioridade. O que guia a procura desses seres é o desejo de encontrar os verdadeiros fundamentos da alma ‘fugindo da dispersão para entrar no recolhimento da essência’. A pulsão que se manifesta no seio do seu tormento é a da génese do nascimento para si mesmo em espírito e verdade, indo além do marasmo da finitude. Se não existe nascimento sem sofrimento, isto é igualmente verdadeiro no que tange ao nascimento para si mesmo na dimensão da interioridade."

in France Farago, Compreender Kierkegaard,  , Editora Vozes, 2006.

21/05/13

Amigos II

Francisco José Viegas       

                      

Os amigos vêm uma vez ou outra e sentam-se,
mostram-te como são dóceis ou difíceis, ou
como a morte se impede, por eles, de chegar
até ti. São uma barreira contra a morte,

os amigos, acaricias vagamente o seu rosto
ou a sua memória, as palavras não servem
para isso. Por eles vem a geometria do mundo,
neles se perde depois, nem que seja para sempre.

Vê como eles chegam e trazem vinho, tabaco,
vergonha, cartas antigas, recortes de jornais,
músicas que ouvimos antes. Depois sentam-se

chamam-te para o meio deles, emprestam-te
uma palavra ou outra, caminham com vagar,
riem, trazem coisas que esqueces por toda a casa
.

 in O Puro e o Impuro; ed. Quasi, 2003


Daqui a vinte anos... quem sabe?

 

Daqui a vinte anos... quem sabe?