04/05/13

Meu pratinho de arroz doce

Dor de Alma

Meu pratinho de arroz doce
polvilhado de canela;
Era bom mas acabou-se
desde que a vida me trouxe
outros cuidados com ela.

Eu, infante, não sabia
as mágoas que a vida tem.
Ingenuamente sorria,
me aninhava e adormecia
no colo da minha mãe.

Soube depois que há no mundo
umas tantas criaturas
que vivem num charco imundo
arrancando arroz do fundo
de pestilentas planuras.

Um sol de arestas pastosas
cobre-os de cinza e de azebre
à flor das águas lodosas,
eclodindo em capciosas
intermitências de febre.

Já não tenho o teu engodo,
Ó mãe, nem desejo tê-lo.
Prefiro o charco e o lodo.

Quero o sofrimento todo,
Quero senti-lo, e vencê-lo.
 
                                      António Gedeão 

03/05/13

Eu vou com as aves!

Poema à mãe







No mais fundo de ti,
eu sei que traí, mãe!
Tudo porque já não sou
o retrato adormecido
no fundo dos teus olhos!
Tudo porque tu ignoras
que há leitos onde o frio não se demora
e noites rumorosas de águas matinais!
Por isso, às vezes, as palavras que te digo
são duras, mãe,
e o nosso amor é infeliz.
Tudo porque perdi as rosas brancas
que apertava junto ao coração
no retrato da moldura!
Se soubesses como ainda amo as rosas,
talvez não enchesses as horas de pesadelos...
Mas tu esqueceste muita coisa!
Esqueceste que as minhas pernas cresceram,
que todo o meu corpo cresceu,
e até o meu coração
ficou enorme, mãe!
Olha - queres ouvir-me? -,
às vezes ainda sou o menino
que adormeceu nos teus olhos;
ainda aperto contra o coração
rosas tão brancas
como as que tens na moldura;
ainda oiço a tua voz:
"Era uma vez uma princesa
no meio de um laranjal..."
Mas - tu sabes! - a noite é enorme
e todo o meu corpo cresceu...
Eu saí da moldura,
dei às aves os meus olhos a beber.
Não me esqueci de nada, mãe.
Guardo a tua voz dentro de mim.
E deixo-te as rosas...
Boa noite. Eu vou com as aves!

Eugénio de Andrade, Antologia Breve


Mãe

 

30/04/13

ABRIL - Quem nos censurou?

"Nada evolui engaiolado

Abra um livro e sua cabeça

Liberte suas ideias

Deixe o mundo entrar."

C. Lacomba




Para assinalar o Dia do Livro  em scrappbooking

"Os Lusíadas" obra de leitura obrigatória, censurada no seu canto X, pela PIDE 



Outras obras obrigatórias no Ensino Secundário que abril libertou!







A censura pós 25 de abril pela Opus Dei


!7 anos após o 25 de abril Sousa Lara, Secretário de Estado de Cavaco Silva
 censura livro de José Saramago



entre 1933 e 1974  a PIDE censurou mais de 900 livros


 Livros expostos

História da Literatura Portuguesa, A.J. Saraiva e Oscar Lopes;
O Crime do Padre Amaro, Eça de Queirós;
A Criação do Mundo, Miguel Torga;
Bichos, Miguel Torga;
O Judeu, Bernardo Santareno;
Auto da Barca do Inferno, Gil Vicente;
Manhã Submersa, Vergílio Ferreira;
Felizmente, Há Luar!, Luís de Sttau Monteiro;
Angústia para o Jantar, Luís de Sttau Monteiro;
O Canto e as Armas, Manuel Alegre;
A Intervenção Surrealista, Mário Cesariny;
Esteiros, Soeiro Pereira Gomes;

Travessia de Verão, Truman Capote;
Admirável Mundo Novo; Aldous Huxley;
Capitães da Areia, Jorge Amado;
As Aventuras de Tom Sawer, Mark Twain;
O Anticristo; Friedrich Wilhelm Nietzsche.
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