22/02/13

"A terceira miséria é esta, a de hoje."

    

Hélia Correia,
 A terceira miséria é esta, a de hoje.
 A de quem já não ouve nem pergunta.
 A de quem não recorda. E, ao contrário
 Do orgulhoso Péricles, se torna
 Num entre os mais, num entre os que se entregam,
 Nos que vão misturar-se como um líquido
 Num líquido maior, perdida a forma,
 Desfeita em pó a estátua
.
                               A Terceira Miséria - p.29
 
 
 
O livro A Terceira Miséria (edição Relógio d’Água) valeu a Hélia Correia o Prémio Literário Correntes d’Escritas/Casino da Póvoa, anunciado na manhã desta quinta-feira (21/02/2013) na Póvoa de Varzim, a abrir o programa oficial da 14.ª edição deste festival literário.
O júri do prémio – constituído por Almeida Faria, Carlos Vaz Marques, Helena Vasconcelos, José Mário Silva e Patrícia Reis (que não esteve presente na reunião final do júri realizada na quarta-feira, mas enviou o seu voto) – considerou que o livro de Hélia Correia, “mais do que um conjunto de poemas, é um longo poema construído a partir da matriz clássica europeia para reflectir sobre questões fundamentais do Ocidente”.
 
Existe na Biblioteca


20/02/13

Evocando o pai da Açorianidade



Hoje é o dia do nosso patrono

Pelo  35º aniversário da morte de Vitorino Nemésio


[Nemésio cultivou], a par duma poesia mais «culta» (digamos assim), uma poesia de cunho popular. Essa poesia "culta" verdadeiramente iniciada sob a influência da Europa, e muito especialmente da língua francesa ‑ iria assumir traços filosofantes, reflexões sobre o «ser» e a «enunciação», inquietações acerca do sentido, avaliações do mundo e da memória, interrogações acerca da vida e da morte, do devir e da permanência. Mas, a par de tais inquietações, Vitorino Nemésio cultivou uma poesia radicalmente vinculada à tradição popular, uma poesia que pede às cantigas ao desafio o seu essencial substrato, à redondilha maior as regras da versificação, à quadra popular o seu estendal de rimas. […]
[Trata-se, por exemplo, da poesia inserta em Festa Redonda, 1950.] Festa Redonda é um conjunto de "cantigas" que, como o título indica, comungam numa certa concepção de "festa”: Aí se enquadram reminiscências da infância e da juventude, folguedos, cantares e danças. Tudo retransmitido por uma voz pessoal: a singular voz de Vitorino Nemésio […]
Vitorino Nemésio fez-se assim mais um entre os cantores: 
Samacaio deu à costa
Sem ser navio nem peixe:
Eu arribei a uma vida...
Queira Deus que não me deixe!

Samacaio foi à América,
Veio de lá calafona:
Trouxe uma suera de lã
Pró peito da minha dona.
Nunca ninguém cantou tais versos do Samacaio. São o improviso de Nemésio como se, no terreiro, botasse a sua cantiga... sobre o mesmo tema, mas com pessoal originalidade, que isto de repetir ipsis verbis fica muito mal a cantador. Criteriosamente, o léxico evoca a aventura açoriana no Novo Mundo:"calafona" (o que foi à Califórnia),"suera" (sweter) são, na derradeira quadra transcrita, as marcas mais sintomáticas da interpenetração linguística. Mas cheia de naturalidade! Lá, nos Açores, diz-se assim. 

José Martins Garcia, Vitorino Nemésio, a obra e o homem, Lisboa, Editora Arcádia, 1978.