27/11/12

Triguinho de Natal

A propósito dos Pratinhos de Trigo, uma tradição de Natal...


Searinha  de Natal 2011- BE

As primeiras searinhas são para o Menino Jesus! Lá diz  a tradição que no dia oito de dezembro, dia da Imaculada Conceição, padroeira de Portugal, é o dia de colocar  o triguinho nos pratinhos, a cevada, a ervilhaca, os tremoços ou as favas, para germinarem à luz ténue de dezembro, nas janelas viradas a nascente e, assim, crescerem até ao fim do Advento, com regas dia sim, dia não.
Esta tradição era uma bênção premonitória das novidades do  Novo Ano que, se bem sucedida, incitava ao suspiro aliviado, daqueles que da terra tiravam o sustento.
No início do Advento,  já o anjo Gabriel anunciara  a  Maria a misteriosa vinda do Salvador e esta   na sua perturbação ainda se  indagara : "Como será isso, se eu não conheço homem?" Lc. 1,34   a azáfama já começara, em terra de abundantes  pomares,  pelo   mirar  das mandarinas que iriam ornamentar o presépio, depois de colhidas  com os mais redobrados cuidados.
Nessa ornamentação entrava a pura toalha bordada pelas bordadeiras que, nos  arremates da casa, dispunham   as  rosas do Japão a  dar cor e frescura  ao meio da casa, depois de espalhado o feno pelo chão de terra batida. "Por aqueles dias, pôs-se Maria a caminho e dirigiu-se à pressa para a montanha, a uma cidade de Judá." Lc. 1,39 para visitar  sua prima Isabel.
 E assim, nuzinho ou de branca fitinha de cetim, atravessada do ombro à anca, encimava, em pé,  as escadinhas do presépio, aquele Menino, rodeado das lindas cores do quente frio  Natal  dos meus avós.
Se dinheiro havia, uma pequena luz de  folheta se acendia ao lusco-fusco, para as crianças Lhe cantarem,  uns  versos mal soletrados, convictas de que Ele iria pôr presentes no sapatinho. Mas tinham de se  comportar bem e de fazer sacrífícios pelos pecadores!
Na  véspera de  Natal, lá se colocava, na chaminé, o sapatinho ou a galochinha para o Menino botar  uma batata doce assada, uma laranja e uns rebuçados de açúcar caramelizado, embrulhados em papel fino ou um chocolatinho de creme, embrulhado em papel prateado, com a miragem do primeiro mapa da vida: as  nove ilhas dos Açores, que se guardava, religiosamente, muito direitinho, no livro da Primeira Classe.
Mas, para quem não tinha novidades da terra, sempre encarregava alguém, que indo à cidade nesta  quadra, levava como destino certo o Armazém  Zeferino, na Rua da Sé ou a loja   do senhor   Basílio Simões, na Rua Direita, para comprar a retalho  uma meia quarta de trigo e uns incensos de banana e limão, uns corantes verdes e vermelhos  para o anis e para o licor, pois pouco tempo  restava para  fazer a Sagrada Mijinha do Menino Jesus.
E, de geração em  geração,  de ano para ano, a ornamentação dos presépios tradicionais  ou de lapinha das casas rurais ia sofrendo modificações. Nesse tempo, há quarenta anos atrás, as alegóricas  figurinhas de barro eram muito poucas e raras  e quem as podia comprar eram as famílias abastadas que as apreciavam nas casas dos primos da cidade. Assim, devagarinho começou a moda concorrencial dos presépios estendidos pela casa. Puxavam pela imaginação para fazer o presépio mais ornamentado e trabalhado da vizinhança,  à falta das ditas figurinhas: figurantes vestiam  frascos de comprimidos, casinhas  de  papelão  branco, feitas de caixas de sapatos, com portas e janelas de abrir e fechar, ruas  de galinhas, currais de ovelhas e vaquinhas...e patas e cisnes   deliciados a nadar em pedaços de espelhos partidos, rodeados de pedrinhas e musgos verdinhos e heras pendentes. Anos depois, nos caminhos e atalhos colocava-se farelo para amaciar os pés dos pastores, das lavadeiras  e dos campinos  de Portugal,  na sua longa caminhada para Belém. Era o encanto dos anacronismos! O galo, o anjo e a estrela do Oriente, guardiões da gruta de pedra basáltica, anunciavam o nascimentos de Jesus.  "Completaram-se os dias de ela dar à luz e teve o seu filho primogénito, que envolveu em panos e recostou numa manjedoura, por não haver para eles lugar na hospedaria" Lc. 2,7-8. Todos estavam  a  postes nos seus lugares, com os seus papéis bem definidos. E nós fomos  bem agasalhados à Missa do Galo...
Os presépios da minha adolescência eram já estes em que se reconstituía quase a freguesia inteira e se colocava a procissão no caminho com a filarmónica a tocar atrás e o pendão à frente, que eu confundia com o ambão e que os mais velhos chamavam de lambão, depois que as missas deixaram de ser em latim. Eram lindos  e coloridos estes nichos de criatividade singular de freguesia para freguesia,  pois ainda não havia o natal na televisão e  tudo era feito com muito carinho, com os verdes tons da ilha, a expressar, de cada um, a sua  redutora visão  do mundo. Era naqueles  longos serões de inverno, que o meu pai, já cansado, começava por desenhar num saco de papel de  compras feitas  na  Base, a "maquete" que indicava onde iria  ficar a gruta, os animais e as casinhas. Depois,  íamos todas compondo o tracejado com os muros, os animais e os Reis Magos em fila, trocados pela inocência,  opinando  de que lado ficava Maria, se à direita ou à esquerda de S. José. 
A nossa primeira árvore de Natal  foi,  de longe,  a mais bonita de todas! Só tinha alguns  balões coloridos amarrados com umas linhas de coser, rebuçados  pendurados a  cair em cascata e umas sombrinhas de chocolate Regina, vindas da pastelaria Luso, colocadas lá bem no cimo, nos últimos ramos do cedro que perfumavam a sala, local quase desconhecido por nós nos restantes dias do ano. Era nesse espaço privilegiado do Natal que a admiração  pela árvore  enfeitada de sucolentas guloseimas  nos transmitia a doce magia de Natal.
Nessa altura acendia-se uma velinha ao Menino Jesus, antes de anoitecer  e passavam-se horas a olhar aquele bulício das figuras de barro, com interrogações mudas, sem  saber  por que razão só havia um preto no presépio, que ainda por cima era rei e ficava sempre no meio dos outros.

Rezava-se uma dezena e cantava-se:
-"Oh meu Menino Jesus
Cad'a tua camisinha?
-Ficou lá em Belém,
Em cima d'uma pedrinha.


"Oh meu Menino Jesus
Filho de S. José,
dá-me uma bicicleta,
Pra eu não andar a pé."

"Quando os anjos se afastaram deles em direção ao Céu, os pastores disseram uns aos outros: «Vamos então até Belém e vejamos o que aconteceu e que o Senhor nos deu a conhecer»  Lc. 2,15.
As prendas de Natal abriam-se, então,  no dia 25 de dezembro, de manhã cedo, depois de uma noite, sobressaltada, no quentinho das camisas de dormir de flanela cor-de-rosa  que a mãe sempre  fazia a triplicar. E teimávamos num dilema porque, sendo eu a mais velha,  tinha  a  convicção de que quem punha os presentes  no sapatinho  era  o Menino Jesus, enquanto que as  manas   insistiam  que era o Pai Natal quem colocava as prendas pela chaminé abaixo. Quando conheci  o velhinho  Pai Natal, através dos cartões de Boas Festas vindos da América,  já não tinha idade  para me render a nenhum deles.
Hoje, muitas pessoas recordam o Natal  da sua infância e gostam  de dar ao Menino aquela simplicidade  do Triguinho de Natal que vem do trabalho da terra e não aquele brilho urbano, que também põe as casas bonitas, mas que não lembra que quem faz anos é o Menino Jesus. 
Para mim, o Natal é um estado de alma que se  preenche ao contemplar  a  simplicidade vivida no interior da gruta, o  menino nas palhinhas, essa pobreza de espírito,  que nos transmite outra  riqueza interior,  pelo exemplo da bondade, da humildade e do amor e tentar  viver, todos os dias do ano, como aquela Sagrada Família...embora nos dias de hoje seja muito difícil!
 
Um Santo Natal a todos! 

Silvana Correia - 27 de novembro de 2012

Nota: Caso pretendam obter um conhecimento mais específico dos termos usados podem consultar na Biblioteca a seguinte bibliografia:

BARCELOS, J.M. Soares de, Dicionário de Falares dos Açores, Vocabulário Regional de Todas as Ilhas, Edições Almedina SA, 1ª Edição, Coimbra, 2008.

COSTA, Alcindo, Bíblia Sagrada, Difusora Bíblica, 15ª Edição, Lisboa, 1991.

Glossário:
A não colocação do significado dos regionalismo acima destacados tem como objetivo permitir aos leitores deste blogue, especialmente aos alunos, professores e funcionários  deste estabelecimento de ensino, interagir com a Biblioteca,  escrevendo o seu significado ou ainda melhor  relatar  as suas  vivências  de Natal com outros termos também tradicionais, sejam dos Açores ou de outra região de Portugal ou  até mesmo do estrangeiro.



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